Luíses,
três reis em reinos sombrios
ou
metáfora para três paixões homônimas
Luís I
Esse era um jovem imperador adolescente muito tímido e quieto escondido
por trás de grossas lentes dos seus óculos. Era talvez a única coisa
realmente feia nele. Os hormônios naquela fase já lhe davam pêlos e uma
aparência adulta para governar aquele reino. Por medo o jovem imperador
desistiu, abriu mão de seus poderes em nome de uma ordem teocrática.
Entregou-se de vez aos ensinamentos dos sacerdotes, não porque sofrera
lavagem cerebral ou qualquer outra forma de manipulação, mas por um
certo cinismo em admitir para si mesmo que estava no caminho certo e
assim se livrar de vez do maior de seus medos: o pecado.
No meio a tanta loucura ele tinha uma peculiaridade: jamais condenou
algum súdito. Nem mesmos os maledicentes.
Hoje, parece estar enfurnado em alguma biblioteca no lugar mais remoto
de seu reino tomado por uma neurose que o faz contar todas as páginas
dos livros de uma coleção interminável. Pelo menos ele não fala mais de
religião. Só desaprova as mulheres de saia curta em seus domínios. No
princípio, o senhor Rodrigues achou que era medo do tesão, hoje é sabido
que ele teme ficar igual a uma dessas moças que ele tanto repreende.
Luis II
A cara feia e desgrenhada resumia-se em silêncios escutando alguma música
que o levasse a um país distante, bem longe de seu reino. Alimentava a
esperança de que algum dia um ET o levasse para uma galáxia distante e
assim ele experimentaria toda a loucura que ele gostaria de experimentar
e toda a alucinação possível e imaginada.
A razão para fugir de seu reino silencioso não era muito clara. O pai
doente há muito tempo abdicara do trono em seu favor. Ele só se esquecera
que o filho era tão omisso quanto ele. Já a velha rainha, que sempre
ousou ter aquele reino nas suas mãos, mas não podia- a tradição impedia
as mulheres de reinar-, preferiu agir nos bastidores. E tal estratégia
deu certo por muito tempo, pois o filho era incapaz de tomar qualquer
decisão que a desagradasse.
Até que um certo dia o tal alienígena chegou. Se apresentou ao rei, que
ficou muito feliz e quis conhecer toda aquela terra, já que o ser nunca
saíra de seu próprio planeta. Assim o rei fez: decidiu seguir seu sonho
e apresentou o planeta para aquele simpático visitante.
Todavia, essa visita era feito em passos de tartaruga a ponto de deixar
o ET confuso sobre o tempo naquele novo planeta. Sem falar que a velha
rainha desconfiava de algo, mas o filho rei escondia tudo, pois sabia
que não ficava bem para um governante andar com alguém de fora, ainda
mais de outro planeta. Poderia ser acusado de traição pelos seus
súditos, que na realidade sabiam de tudo e pouco se importavam.
Um dia a rainha mãe soube de tudo e fez um drama na sala secreta do
palácio. Ela não queria chamar a atenção. Suplicou ao filho em desespero
para que aquelas andanças com o forasteiro terminasse imediatamente.
Claro que essa súplica foi feita com uma grande soberba, pois ela não
queria perder a pose e o poder.
Então, no mesmo dia, o ET foi se encontrar com um confuso e desligado
rei. Fez-lhe uma proposta tentadora: "venha comigo conhecer os outros
lugares do universo, até aqueles que eu ainda não conheci. Não é isso
que queremos?". Mas o rei hesitou muito e até tentou mandar seus guardas
trancá-lo em algum calabouço para que ele não fugisse de lá. O rei,
perdido em velhas idéias e com uma tecnologia tão capenga quando sua
aparência, não se deu conta das novidades do alienígena, que usou de
um dispositivo desconhecido e sumiu em sua nave, deixando os lacaios
do rei atônitos. Desde então o alienígena não foi mais visto naquele
lugar. Parece que ele anda vivendo novas experiências em um meteoro
verde bem longe dali. E ao rei, restou a ele se fechar em seu próprio
calabouço numa greve de fome não declarada, enquanto a família real
permanece muda e apática, como era tudo antes da visita.
Luis III
Esse vivia num reinado de sombras. Não era um rei triste, tinha muita
firmeza nas coisas que fazia, mas quando tinha que voltar para si mesmo
o que ele encontrava era uma incerteza, uma incapacidade de dizer quem
ele realmente era. Mas fazia tudo conforme as regras daquele reino e
tinha certo reconhecimento de seus súditos. Tudo corria bem até o dia
da tragédia em sua vida.
A rainha, sua esposa, havia se suicidado. Na carta de despedida ela
se dizia insatisfeita e que iria procurar o seu próprio caminho e que
ele deveria fazer o mesmo. O rei leu a carta de forma atenta, mas passou
meses recusando a idéia de que aquele corpo enterrado no mausoléu da
família era de sua rainha.
Alguns meses depois ele partiu em uma viagem para um mundo mais iluminado.
Ao chegar nesse mundo sentiu que o sol o abençoava, mesmo que muitas
vezes queimasse a sua frágil pele. O cheiro do mar trazido pelas brisas
e os pés descalços nas pedras o fez se sentir novo e com novas esperanças.
E ali ele conheceu novas pessoas que trouxeram coisas novas a ele também.
Parece que também ocorreu uma nova paixão por alguém daquele reino, mas que
não pôde ser concretizada pois essa paixão recusava as sombras e o rei,
um soberano responsável, não podia deixar seu trono vago.
Ao voltar para o seu país de origem ele viu todas as coisas sombrias
exatamente no mesmo lugar que estavam. Só que algo o chamou a atenção
enquanto cavalgava no meio da estrada que dava acesso ao seu castelo.
Ele percebeu a sombra de uma árvore feia e velha sem folhas projetada
no chão castigado daquela floresta. Pensou consigo mesmo "para haver
sombra, deve vir luz de algum lugar, para bater nesta árvore e assim
formar a imagem que vejo no chão". Assim, pela primeira vez em muito
tempo voltou os olhos para o céu sombrio e percebeu que a luz do sol
entrava timidamente por entre nuvens carregadas. E lembrou-se de que
aquela luz era a mesma do país que visitara. Decidiu então largar o
cavalo e se colocar sob aquela luz e, ao fechar os olhos, estava de
novo no mesmo lugar onde foi feliz. E ao se sentir vivo percebeu que
a felicidade não era um buraco de luz abrindo o céu, mas o que essa
luz poderia abrir em seu coração.
KRTK
"Isso quem falou não fui eu, foram vocês, o povinho da crítica". O Sr Rodrigues pode estar errado na citação mas está certo de que foi da Alessandra esse comentário em uma tarde no Instituto de Psicologia (IP). Com isso ela tava tachando, e batizando todo um grupo de amigos, um subgrupo de uma turma inicial de 80 alunos e do qual ela mesma fazia parte.
Era mais ou menos assim: um grupo de um pouco mais de uma dúzia de alunos, com muitas diferenças entre si, mas uma semelhança, característica pela qual Alessandra batizou o grupo, formado, além dela e do Sr Rodrigues, por Baby, Vanessa, Nadia, Marcelo Viagem, Marcelinho, Gustavo, André, Daniel, Letícia, Lydia (e o Junior namorado dela que mesmo sem ser da faculdade, colaborava nos comentários), Paula, Robertona, Maria Fernanda e Valeria ¿ esta última não muito de freqüentar os eventos mas com comentários mais do que ácidos na faculdade. Nada escapava dos comentários deste grupo, desde temas óbvios para nós como psicologia, psicanálise ás coisas mais bagaceiras da televisão. Psicólogos lidam, sobretudo, ¿ não importa a teoria ou o campo de atuação - com o comportamento humano. E o que era discutido pelo Povo da Crítica (que ganhou uma abreviação posterior para KRTK) não deixa de ser fruto de tal comportamento.
Algo que me agradava, já que existem diferenças, era a diversidade de idéias no grupo, indo da esquerda à direita, passando pela ausência de posicionamento político. O espectro poderia ir também de uma postura mais conservadora até a mais libertária. De fãs ardorosos de Freud e Lacan a Humanistas existenciais. De clínicos a sociais. Heteros e homossexuais. Negros e brancos. Homens e mulheres.
Por uns tempos chegou a circular um jornal próprio. No final de 1998 se a memória do senhor Rodrigues não falha. Nele alguns pseudônimos (ou seriam heterônimos?) escreviam alguns artigos, desde o editorial da Vovó Maphalda (que da personagem do Valentnio Guzzo no Bozo, só tinha o nome, com esse "ph" afetado) passando pelos horóscopos de Norah Yonneidh, a coluna social de Ava Gina Gardner, a análise psicanalítica de Luís Antônio Pacheco, os conselhos malditos e pérfidos para adolescentes de Judy até os comentários enfadonhos e narcisistas de Jane Du Boque, responsável pela coluna "Na Boca do Povo". Era um jornal restrito ao grupo, feito por pura diversão e resultado do esforço do Gustavo em diagramar e imprimir o bendito jornal, que estava mais para um fanzine metido a besta. Parou de circular em 2000.
As atividades deste grupo não se restringiam a isso. Havia também o troféu "Melhores do Ano" no qual, entre nós mesmos, fazíamos uma "premiação" para os que se destacaram em diversas categorias ( o que era mais turista na aula, o mais "Caxias", o mais chato, o mais mal vestido e por aí vai). Claro que muitos dos contemplados sequer sabiam da existência desse evento, enquanto outros eram membros da própria KRTK.
Com o tempo, os períodos avançando, os estágios, os estresses que ocorrem nos grupos, as pessoas fazendo matérias diferentes, as atividades do grupo se fragmentaram, embora até hoje exista contato uns com os outros. No caso do Sr Rodrigues mais esporádico, já que ele está numa espécie de exílio voluntário com o Povo. Não por insatisfação, pelo contrário, mas ele tem coisas a resolver com ele mesmo antes de partir para um encontro com a KRTK mais uma vez. Um grupo com o qual ele se identifica muito e, mesmo com alguns estresses ocorridos (nenhum grupo é imune a isso, ainda mais quando esse é extremamente crítico), tem muitas saudades, mesmo sabendo que agora estão em etapas diferentes de suas vidas.
O Senhor Rodrigues curte um saudosismo, mas ele detesta querer reviver as coisas exatamente como eram, pois ele tem uma certa síndrome de Parmênides, na qual nada pode ser repetido tal como foi antes.