Alfabeto Escalafobético do Sr Rodrigues
 

 
Um dicionário muito pessoal com conceitos de um escritor carioca.
 
 
   
 
Sexta-feira, Outubro 29, 2004
 


FODA-SE

Foda-se o bom comportamento, a palavra não dita, a falta de iniciativa. A decisão não tomada. Foda-se quem me esqueceu, quem me isolou. Foda-se o medo que sinto em ir a certos lugares. Foda-se a imagem no espelho, o medo de desagradar quem me criou. Foda-se toda essa covardia e o pensamento antes de dormir gerando sonhos desagradáveis, com pessoas detestáveis. Foda-se todo fantasma que me assombra e desprotege o meu sono.

Foda-se a politicagem e o fundamentalismo evangélico. Foda-se o cinismo católico e a incompreensão semita. Fodam-se a moda hinduísta e a mania de ler cabala por esporte. Foda-se a imitação de tradições, a viagem de artista pra São Tiago e um livro de merda publicado sobre essa experiência. Foda-se o descaso do poder para quem necessita. Foda-se o poder opressor que nasce do descaso desse outro poder. Foda-se quem não gosta de política. Foda-se quem fala mal de todos os políticos e votam nos mesmos canalhas de dois em dois anos para ter assunto e continuar a falar mal deles. Foda-se o comentarista dono da verdade, cheio de sarcasmo e informações pífias. Foda-se a puxação de saco do coroinha na hora da missa. Foda-se a freira dona de escola que babava quem ela julgava rico. Foda-se também a freira, amiga dela, de cara feia e sempre em retiro, sem falar com ninguém. Foda-se o padre com medo da televisão, das imagens de traição e desagregação da família. Foda-se as músicas estúpidas na hora da missa, estragando a sua beleza. Foda-se as massas carismáticas, forçadas, interesseiras agitando suas carteiras de trabalho ao ar, achando que Deus é patrão e empresário. Foda-se meus parentes crentes que enchem o saco por causa do altar no meu quarto. Foda-se aqueles que acham que alguém inteligente não pode ter religião. Foda-se quem não respeita os crentes, descrentes, agnósticos e os ateus.

Foda-se toda forma de preconceito, inclusive todos aqueles que tenho e sei. Foda-se a homofobia. Foda-se o cara que se julga macho falando mal de viado. Foda-se o que bate em viado. Foda-se a mãe que educa o filho para ser esse pústula e o pai ausente que alimenta isso. Foda-se o racismo. Foda-se a menina que foi ao Caribe e só viu, indignada, preto. Foda-se quem olhou para minha pele e achou que a freira fez caridade e me tornou bolsita. Foda-se a menina que me vê com meu homem e me acha mais sensível por causa disso. Foda-se o comentário daquela que odeia Paraíba. Foda-se o preconceito de quem sofre preconceito. Foda-se a mulata coroa de cabelo vermelho de má vontade com outros mulatos e negros nas repartições públicas. Foda-se a jornalista paulista que sempre pergunta ao cantor nordestino se ele passou fome, pergunta que ela não faria a um conterrâneo seu.

Foda-se quem se droga pra achar que é superior aos outros e tem a mente aberta por causa disso. Foda-se o maconheiro namorado daquela menina que a humilhou porque a irmã dela era lésbica. Foda-se a menina que não respondeu à altura. Foda-se os bêbados a encher o saco. Foda-se o vício. Foda-se a neurose. Foda-se aquele que diante de um problema prefere encher o saco dos outros e não se tratar.

Foda-se quem fala mal da novela das oito. Da televisão. Foda-se o discurso panfletário sobre alienação. Foda-se a garota militante de all star que gosta da favela porque lá vende o seu fumo, mas se seu filho namorar uma menina dali será a primeira a deserdá-lo. Foda-se quem olha pobre como ser exótico e dá risada tratando-o como criança. Foda-se as bandas com mais pode do que música. Foda-se a celebridade instantânea. Foda-se a atriz-e-modelo com o staff de 10 profissionais porque não tem talento. Foda-se quem não gosta de carnaval. Foda-se quem odeia o samba. Foda-se quem só assiste o cinema blockbuster americano e nada mais. Foda-se a horda de adolescentes no cinema. Foda-se o namorado que só assiste a comédia romântica sem graça com a namorada pra fazer a sua vontade, mas deseja ver um filme de ação. Foda-se a mulher na TV enrolada com um parangolé e achando aquele troço bonito. Foda-se o cara com ar blasé no filme de arte. Foda-se a patricinha débil mental e seu parceiro sem notocorda.

Foda-se o desprezo. O descaso. A falta de amor. Foda-se ir á festa para fazer uma social e não conhecer ninguém. Foda-se a roda de violão com as mesmas músicas chatas de sempre. Foda-se a vergonha em ser olhado na festa. Foda-se o cara polêmico a esmo.

Foda-se a trepada por compromisso. As horas e dias contados. Foda-se o longo período de dias sem transar mesmo namorando. Foda-se o pau brocha. Foda-se o cara que não deu. Foda-se aquele que beijava mal a minha boca, quando beijava. Foda-se aquele com quem trepei muito bem e hoje tem raiva de mim. Foda-se o estrangeiro de pau pequeno preocupado com o próprio orgasmo. Foda-se se a menina que namorei saber que eu gosto de homem. Foda-se o contador de vantagens que diz comer todos e todas e morre de vergonha se alguém descobri que ele sentiu prazer em seu próprio cu.

Foda-se o bom filme que deixei de assistir. O meu remorso por isso. O mesmo serve para o show o qualquer outro evento cultural. Foda-se a psicanálise que não ajuda e fica fechada em si mesma sem ajudar ninguém. Foda-se a minha neurose não tratada. Foda-se minha ansiedade. Foda-se a analista filha da puta que me forçava a escutar a voz do Brasil toda enquanto eu esperava feito um babaca na sala de espera a infeliz com seu raptor de odores e nariz de bruxa. Foda-se este que escreve por não tê-la mandado se foder. Foda-se a falta de uma casa bonita. Foda-se a roupa que se repete. Foda-se a falta de grana.

... e tem todas outras coisas que queria mandar se foder, mas foda-se , estou com preguiça.

Foda-se a mim que esqueceu que a foda (boa ou ruim) é sinal de vida e que na minha utopia, as coisas anteriores simplesmente não existiriam. Estariam todas elas mortas.

Quarta-feira, Outubro 27, 2004
 

E

(Do (m)eu ofício de escrever)


Estudar
e esforçar
e encher encéfalo

em
entes:

escadas

em
espirais

en
feitando
en
feitiçando

(embaraço
e
espanto)

Enfim,

entendendo:

esse é

(m)eu

escrever!

Sexta-feira, Outubro 15, 2004
 


D

Dãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

"A loucura faz parte de nossas vidas. O surto é só para aqueles que
têm coragem ou aqueles covardes que escolhem esse caminho para dizerem
o que deveriam ter dito há muito tempo.

...comigo não é diferente. Dãaaaaaaaaaaaaaaaa! Não vou me eximir de
ser um Déeeeeeeeebil mental... em especial quando quero me levar
a sério demais. O que estou a esconder?"

Domingo, Outubro 10, 2004
 
CURVAS



Os deuses se reuniram para construir uma nova terra. E um deles para contrariar a determinação de sempre, aquela sempre quadrada e obtusa decidiu: a minha construirei com curvas. E leu seu manifesto aos demais presentes na reunião:

"Assim será a terra de São Sebastião. Quero ondas que se converterão em ressacas. Quero sexo, curvas de pênis, concavidade, vagina, bunda. Ânus, curvo e não reto como hão de dizer. E mais, os corpos se converterão em curvas, ainda que obtidas a comprimidos, bisturis e injeções. E para os malogrados desta terra, a curva da obesidade. E tudo isso
há de ser celebrado em uma grande orgia de 4 dias, uma vez por ano.

Quero curvas para salientar a paisagem, desenhar os morros e suas ladeiras infindáveis. Curvas que desenham as balas que cortarão o céu curvo da terra e rasgarão a paisagem sem retas da minha cidade a retirar a vida de seus cidadãos, estejam eles engradados em jaulas com dispositivos eletrônicos ou não.

Curvas tão gigantescas como as da arena em que a bola, a curva sólida, rolará. Curvas para as marcações e nas cabeças rachadas de torcedores envolvidos em brigas. Curvas nas pontas dos cassetetes da polícia a rachar o corpo curvo de seus cidadãos, mas não para aqueles nos quais o dinheiro segue em uma linha reta (e por fora). Será a falsa proteção
dos que insistirem nesse caos com tanto dinheiro.

Quero curvas por todos os lados, no paraíso e no inferno. Na subida do Corcovado ou do Complexo do Alemão. Isso pouco me importa. O que importa é o meu gosto e danem-se os desgostos que hão de vir em meio a tão sublime beleza.

Assim seja..."

Foi nesse instante que Madame Zoraide -- esse era um nome artístico, que fique bem claro -- acordou do seu sonho com os deuses e desolada foi para janela ao contemplar a paisagem curva. E uma lágrima de tristeza correu sobre as curvas de
seu rosto ao perceber que o caos que vira, diferentemente do seu sonho, não era, de fato, obra de um deus caprichoso, belicoso e cheio de vontades.

Quinta-feira, Outubro 07, 2004
 


A-B-A

A ABAfante Boneca. Truque da travesti que quer ser a top nos classificados
em um jornal vagabundo. Poderia anunciar em jornal chique, mas o dinheiro
que ela ganha vai todo pra caderneta de poupança: tem família que mora
muito longe. Quer também fazer uma operação. Transgenitalidade, foi
o nome esquisito que ela viu outro dia no mesmo jornal que lê.

A ABAfante vê o anúncio de ABsorverntes com ABAs ma televisão. Pensa no
fato de que nunca irá sangrar mensalmente. Se isso é bom ou ruim, ela
não sabe. A única mulher com quem teve mais intimidade para conversar
essas coisas nasceu sem os ovários. Mas adotou crianças, hoje adultas
que vivem na ABA dessa pobre mulher.

O Sr Rodrigues pensa no ABsurdo que criou com as duas primeiras letras
do alfabeto. Por ser neurótico, da letra B volta pro A, como todos aqueles
que dizem estar avançando e permanecem na mesma. Melhor ABAfar o caso, já
que está se falando de uma doença, e com o agravante desta pertencer
à alma do infeliz escritor.

 

 
   
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